Impotência sexual psicológica e uma incrível descoberta da psicologia
PSICÓLOGO ANTONIO CARLOS ALVES DE ARAÚJO- C.R.P. 31341/5- TERAPIA DE CASAL E INDIVIDUAL
Confesso que se fizer um apanhado Geral de minha experiência clínica, subestimei por completo o problema da impotência sexual psicológica. Sem querer me defender confesso também não ter tido muita culpa referente a tal fato, já que minha formação é a de terapia de casal. Mas a partir dos anos noventa simplesmente fui arrastado para a área de sexualidade de forma involuntária. Tudo começou com algumas pessoas relatando impotência sexual durante a penetração, sem nenhum comprometimento físico, inclusive todos antes de me consultarem já haviam procurado o urologista. Obviamente o diagnóstico dessas pessoas era de ansiedade generalizada que afetava diretamente seu desempenho sexual. Com algumas poucas sessões geralmente as coisas se resolviam satisfatoriamente. Porém, o mais impressionante ainda estava por vir. O perfil da pessoa acometida de impotência era um homem de cerca de uns 35 a quarenta anos, casado e geralmente entediado em sua relação. A partir de meados dos anos 2000, a coisa mudou radicalmente. Passei a ser procurado diariamente por dezenas de jovens com tal problema entre 18 e 20 anos, sem nenhum problema físico e no auge de sua sexualidade. Não entendi muito bem no começo como tal situação podia ser possível, mas o tempo me mostrou revelações impressionantes sobre tal fenômeno. Obviamente essa garotada me procurou por ser um terapeuta homem, onde talvez se sentissem mais a vontade para desabafar tal drama pessoal. E comecei a notar que os casos já não eram tão simples como no passado, estavam extremamente estruturados, e o mais incrível de tudo, todos eram praticamente iguais, até hoje. O jovem começava relatando certo nervosismo ou fracasso nas primeiras experiências sexuais seja por medo de ser flagrado por um familiar, ou por medo de um desempenho não satisfatório com a parceira, depois esse medo se alastrava por completo, fazendo com que o jovem se recusasse quase por completo a ter experiências sexuais.
Foi a partir desse ponto que descobri uma coisa absolutamente fascinante. Para quem não sabe os primórdios da psicologia de FREUD se embasou na teoria da histeria, ou seja, dada a extrema repressão sexual da época, simplesmente a mulher era acometida de diversos sintomas psicossomáticos, exatamente por não poder vivenciar sua sexualidade de modo natural, estava dado o passo para a base estrutural de toda a psicologia moderna. Pois bem, após 110 anos dessa verdadeira revolução na arte de interpretar a mente, descubro exatamente o inverso, que hoje em dia é o homem que sofre tal dilema sexual, o somatizando justamente na impotência sexual. No passado era a mulher pela repressão da sociedade, e hoje qual será o fator que levou o homem a histeria? Competição e medo da opinião alheia sem a menor sombra de dúvida, o espírito de ter de provar simplesmente corroeu a função biológica natural de uma ereção espontânea. Então concluo que tanto homens e mulheres estavam fadados a uma longa doença sexual, as últimas pela ideia do pecado e moralismo, e os primeiros pelo fantasma satânico do desempenho, a mulher do passado rejeitando ou aceitando o bloqueio de sua sexualidade, e o homem moderno encarando o sexo como situação de prova ou competição, quem sabe a partir desse conhecimento não se pode chegar ao equilíbrio de uma relação entre ambos os sexos tão desgastada e conflitiva como vimos assistindo. O homem moderno com esse problema erétil começa até a desconfiar se realmente é um ser desejante, não conseguindo se realizar a si mesmo e a parceira. Na verdade, os jovens caíram na pior armadilha de todas, que é transportar valores econômicos ou políticos para a esfera da sexualidade. Culpa e medo são os irmãos mais castradores de qualquer prazer que deveria ser o mais natural possível, porém estamos de volta com a epidemia da repressão em outro nível, “se pode fazer, mas tenho medo de falhar”.
Já disse em diversos outros textos que o tímido não deixa de ser um colecionador de oportunidades perdidas, e agora afirmo que a impotência sexual psíquica tem o mesmo efeito, simplesmente impedir a vida e o prazer do sujeito em questão, é o puro instinto de morte proposto por FREUD, só que na prática, tenho tudo, saúde, juventude, mas não posso usá-las. Na verdade tal fenômeno acaba por afetar tudo, a parte hedonista da pessoa, como a chamada parte eudalmônica, que é quando a pessoa sabe de suas metas e realizações que almeja. O que mais chama a atenção na terapia com jovens com esse problema, é que a cada fracasso sexual relatado, eles têm a certeza iminente de que nunca irão conseguir realmente fazer algo por eles nesse terreno. Outra descoberta que notei diz a respeito de uma antiga tese formulada pelo psicólogo WILHEM REICH de que a memória não se encontra apenas no cérebro, mas espalhada pelo corpo todo. Nesse sentido, analisando casos de impotência sexual apenas com a parceira, mas na masturbação fluía normalmente descobri que há uma espécie de retardamento no âmbito sexual, sendo que a pessoa não ficou presa somente à masturbação como pensava a psicanálise, mas que sua inteligência genital simplesmente parou de se desenvolver, sendo que a masturbação é o máximo de evolução que conseguiram no âmbito da sexualidade, chamo isso de autismo sexual. É um tanto irônico que um fenômeno social de nosso tempo passe novamente pela sexualidade, ou seja, mais uma vez esta última abre as portas para a raiz do bloqueio psíquico. Acho um tanto irônico novamente como uma grande descoberta passa despercebida de outras. Refiro-me ao conceito de FREUD sobre os sonhos, onde ele achava que os mesmos eram a via régia do inconsciente, justamente ele que colocou tanta ênfase na sexualidade, acabou não percebendo que esta última é a aferição mais precisa do material oculto, é a junção do inconsciente pessoal (traumas e bloqueios do indivíduo, com o inconsciente coletivo, imagens ou medos sociais que a pessoa acaba incorporando).
Mas apesar de todo esse esclarecimento da problemática da impotência, ainda tinha algumas dúvidas de como a mesma se associava ao problema da timidez. Claro que sempre soube que alguém tímido teria um medo acentuado de ser exposto tanto socialmente quanto sexualmente, mas e se dissesse que o mesmo ama tal condição? Soaria um tanto estranho, já que todos tem noção do terrível peso da solidão em nossa era. A resposta me veio através de um sonho de um paciente acometido pelo problema tratado neste estudo. Vou ser franco que apesar de ter iniciado meus textos com um artigo sobre interpretação de sonhos e pesadelos, sempre fui meu cético sobre o real valor dos mesmos, na maioria das vezes temas banais ou raspas das preocupações do dia a dia do sujeito. Mas com os anos aprendi que isto não é uma regra, e que de vez em quando como dizia CARL GUSTAV JUNG o sonho nos prega uma peça e nos escreve uma carta mais do que perfeita acerca de nossa agonia, aflição, angústia ou esperança. Vamos ao sonho: paciente de 25 anos: “sonhei que voltava a morar com meus pais e irmãos, estava preocupado onde iria dormir, pois a casa não era muito grande, então notei que havia um beliche onde eu e meus irmãos compartilharíamos o quarto, minha mãe preparava o jantar, e meu pai fazia algum reparo na casa. Estava extremamente infeliz e insatisfeito com tudo aquilo, comecei a andar pela casa e descobri uma escada que nunca tinha visto antes. Desci, e fiquei espantado com a vista, era uma imensa casa subterrânea, com diversos quartos, várias piscinas, um palácio propriamente dito, a exuberância do local era singular, tentei chegar perto de uma das piscinas e notei que para entrar na mesma havia uma escada com diamantes em estado bruto, senti que se pusesse a mão num deles me cortaria facilmente, estava maravilhado por desfrutar de tudo aquilo”. É realmente impressionante como o sonho revela por completo o gozo pela timidez e solidão do paciente em questão, sua dificuldade tremenda em interagir socialmente, sendo que sua ambição é exatamente um palácio exclusivo apenas para uso do mesmo, pouco importa família, amigos, sociabilidade, a meta é o conforto ao lado da exclusão social, uma ficção quase esquizofrênica de felicidade num mundo próprio, uma procura por espaço que nada mais é do que o rascunho fiel do vazio de sua afetividade, o autismo sexual que falei, só que simbolizado de outro modo, já que intelectualmente a pessoa era absolutamente normal. Notem ainda que esse desejo ficcional de ter um palácio só para ele de novo simboliza um prazer absolutamente privado que é a masturbação.
Mas já que falei sobre a mistura da sexualidade com competição e disputa tentarei explicar melhor tal fenômeno. Temos de ser francos, se há uma coisa de que ninguém escapa deste planeta é o peso corrosivo da opinião alheia, principalmente quando o assunto é sobre o próprio corpo, que o diga toda a histeria coletiva de dietas e academias. O fato é que desejar não representa nem dez por cento do peso na autoestima do indivíduo em comparação com o ser desejado. Esse é justamente um dos dramas máximos que recai sobre a maioria dos indivíduos e também na problemática da impotência. “O outro sempre vai analisar tudo e talvez seja reprovado”. Como disse acima parece que todo o distúrbio psíquico descoberto passa sempre pela sexualidade. Podem apostar que não é apenas por a mesma ter sido reprimida por quase dois milênios, mas justamente recaiu sobre a mesma um caráter de avaliação dilacerante e mortal para o prazer masculino, então o sexo para esses jovens é como a necessidade de uma espécie de visto, para poder entrar em determinado país, morrendo de medo de ser deportado. Pensemos que uma pessoa que se goste, consiga no mínimo reunir um aparato psíquico que consiga se defender dos ataques externos sem exageros. Na outra ponta, encontramos o indivíduo totalmente narcisista, que tenta a qualquer custo mascarar um complexo de inferioridade, seja com sedução, culto ao corpo ou coisas do tipo, se torna uma espécie de político corrupto, mas que mesmo assim muitos o admiram. Entendam então que o jovem acometido da impotência não tem saída, pois de nada adianta as ferramentas ditas anteriormente já que fatalmente irá ser exposto através de sua virilidade reduzida.
TRATAMENTO
Como sempre falo a impotência perante outros distúrbios psíquicos talvez numa escala de zero a dez de gravidade represente nota um. O problema é que se torna uma das mais ariscas de serem tratadas justamente pelas problemáticas que os jovens trazem, sejam problemas financeiros para custear o tratamento, ansiedade e imaturidade. Digo também sempre que o mesmo não vai conseguir resolver numa semana um problema que vem se arrastando por anos. É necessário não apenas a paciência, mas, sobretudo a obstinação. Todos que levaram a sério sempre foram favorecidos no tratamento, embora boa parte dos casos fique sem solução pelos problemas que apontei. Há a necessidade de se refazer toda a esfera sexual, com determinados exercícios que vão desde a masturbação, até o sexo com a parceira propriamente dita. Não os coloco aqui nem por razões econômicas, mas seria absolutamente ineficaz, pois sem a ajuda profissional não há como se fazer uma análise sobre a evolução do caso. Outro fato extremamente curioso, é que o maior medo de todos é se a parceira descobrir seu problema, e do outro lado cem por cento dos pacientes que atendi que contaram livremente para a mesma e fizeram a terapia foram curados, novamente aqui se insere o fantasma da timidez. Obviamente a cura tem seus limites, assim como na síndrome do pânico onde o paciente a superou, sempre pode haver uma possibilidade de recaída, pois quando a mente explora um sintoma psicossomático, ela adora isso, como um vício, só que a recaída é rara, após o tratamento seja na síndrome do pânico ou na impotência, se resumindo a episódios totalmente esporádicos, se antes de cada 20 relações 17 ou 18 eram falhas, após o tratamento esse número se reduz a uma ou duas, segundo o que sempre observei. Enfim, é preciso estar atento a vários fatores. Lembro-me de que quando surgiu a AIDS, várias organizações religiosas usaram da doença para dizer que a monogamia e o ascetismo seriam o único modo de vida seguro. Obviamente que discordo de tal análise moralista e preconceituosa. Mas devemos estar atentos a fenômenos sociais de épocas e suas consequências. Os hippies acharam mesmo que poderiam praticar o sexo livre sem nenhuma consequência? Muito antes do fantasma da AIDS a humanidade conviveu com a sífilis e gonorreia. Claro que a resposta não é a repressão, mas pensar que estruturas milenares cobram seu preço ao serem destronadas, e com a impotência psíquica não deixa de ser diferente, tudo mundo pensava mesmo que o sexo sempre seria uma grande balada onde poderia escolher várias parceiras como se estivesse num supermercado? A resposta sendo repetitivo, não é o fator moral, mas a perda da afetividade em suma.

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