quinta-feira, 11 de julho de 2013

MICRO - COMPROMISSOS - UMA VIA DE ENTENDIMENTO



MICRO-COMPROMISSOS, UMA VIA PARA O ENTENDIMENTO NOS RELACIONAMENTOS


Por Miguel Lucas

A semana passada li num jornal diário Português, que os casais discutem à volta de 352 

vezes por ano, o que quer dizer “praticamente” todos os dias. E na grande maioria dessas

 vezes por questões domésticas e/ou sexuais. Não afirmo que seja exatamente assim, 

estatísticas são apenas isso, expressam comportamentos de uma amostra da população. 

No entanto, quer por experiência própria, quer por outros estudos que já li, assim como 

conversas que venho tendo com amigos e com pacientes em consulta, a realidade das
 
relações entre casais que vivem juntos não deve fugir muito às estatísticas.

Por esta razão os micro-compromissos podem ser considerados uma boa estratégia 
como tentativa de minimizar as discussões entre casais.
“O que é que queres para jantar? Pergunta o marido.
“Não sei, respondeu ela. O que é que queres?”
“Quer tal hambúrguer?”
“Não, eu não quero hambúrguer.”
“O que é que queres então?”
“Não sei bem, e se fosse massa.”
“Estou um pouco farto de massa. E se fosse Pizza?” disse o marido.
“Eu apetece-me mesmo massa.”
Silêncio. 
Depois: Ok, 
Massa então.

TODOS NÓS FAZEMOS COMPROMISSOS PARA 

O BOM E/OU PARA O MAU

Os problemas que minam os relacionamentos estão quase sempre presentes desde o início. 
Estes são problemas típicos  que foram negligenciados ou conscientemente ignorados 
no calor da paixão, na adrenalina da esperança e do desejo não se admitiu que interferissem 
no estabelecimento da relação, mas que estavam esperando a paixão arrefecer, (o que 
sempre acontece até certo ponto), para ressurgirem mais tarde como possíveis barreiras 
para o relacionamento.
A natureza dessas questões é tão variada quanto as próprias pessoas e inclui 
as diferenças de abordagem e atitude: dinheiro, atividades de lazer, educação dos filhos 
(ou mesmo a possibilidade de ter filhos), religião, educação, desejo sexual, organização 
do lar e preferência de localização. Estas são grandes questões, as questões que se 
tornam mais claras à medida que o relacionamento progride, muitas vezes levando à 
necessidade de se optar por terapia de casal e, às vezes levando ao divórcio ou separação.
 Não quero ser taxativo, certamente existirão outras incompatibilidades como 
diferenças na personalidade e no comportamento, que podem condenar um 
relacionamento, mas em situações em que ambos os parceiros estão 
emocionalmente saudáveis, geralmente, estas “pequenas” questões são muitas 
vezes o que levam ao desentendimento.

A SEPARAÇÃO BANALIZOU-SE?

O divórcio está hoje tão banalizado, a percentagem é tão elevada 
que já ninguém fica surpreendido quando um amigo lhe diz: “Olha divorciei-me.” 
Este ato tornou-se tão banal, que já se aceita como uma “coisa” do nosso 
dia-a-dia. Será que a nossa tolerância para os grandes compromissos 
que todos nós fazemos na formação dos relacionamentos românticos diminui 
com o  passar do tempo? Será que o nível de tolerância das pessoas diminui 
drasticamente? Estaremos todos nós mais egoístas? Será que já não 
conseguimos fazer o exercício de nos colocarmos no ponto de vista do outro?
Também eu não tenho resposta para as questões que coloquei. 
No entanto, acredito que milhares e milhares de pequenas concessões 
estão contribuindo para os mal-entendidos entre os casais. 
Apelido  esses pequenos compromissos diários de:micro-compromissos
São compromissos tão pequenos que quase não reparamos que os 
estamos fazendo, mas que, se estivéssemos sozinhos não os estaríamos 
fazendo. Coisas como: desligar a luz que tínhamos deixado acesa, 
ir almoçar neste restaurante em vez de outro, virar à esquerda nesta 
rua ao invés de ir em frente e virar na próxima à esquerda, macarrão 
para o jantar ao invés de hambúrgueres, e até mesmo o quase 
proverbial deixar (ou não) levantado o assento da sanita quando vamos ao banheiro.

A FORÇA DESTRUIDORA QUE 

OS MICRO-COMPROMISSOS PODEM TER!


A sua lista de coisas que provocam discórdia, ou pelo contrário que necessita de 
micro-compromissos será diversificada dependendo dos casos, mas certamente também 
você não lhes escapará! Estes tipo de situações estão na origem de  muitos  problemas 
que atingem até mesmo aqueles que ficam  frustrados por eles serem ridiculamente 
pequenos. Não se deixe enganar pela sua pequenez, eles têm a força destruidora 
capaz de avassalar muitos relacionamentos. Parecem quase grãos de areia, 
dificilmente perceptíveis à primeira vista, vão caindo nos relacionamentos pouco a pouco, 
até que se começam a acumular  construindo uma barreira que irá restringir a nossa 
capacidade de movermo-nos livremente como desejamos, eventualmente ameaçando 
a morte da relação.

MICRO-COMPROMISSOS, UM PARADOXO 

BENÉFICO?

Pergunto-me, se não há para muitos de nós, um efeito negativo de aumento gradual, 
que emerge de tornarmos estes compromissos aparentemente insignificantes, 
para depois insidiosamente desgastar-nos a capacidades de tolerar o nosso espaço 
pessoal com outra  pessoa, talvez até com o passar do tempo envenene a nossa
 habilidade para nos relacionarmos positivamente com o nosso parceiro(a). 
O caricato é que os micro-compromissos são paradoxais, se não os fizermos, 
a relação não terá  pernas para andar, se os fizermos, corremos o risco de 
eles se voltarem contra nós, seja porque julgamos estar a ceder aos 
desígnios do outro, ou porque o outro não cede com tanta frequência como nós. 
Poderíamos dizer que é um pau de dois bicos. Certamente que o é.
Eu acho que quando isso acontece é porque esses micro-compromissos restringem 
o nosso senso de liberdade. Embora nem todos requeiram o mesmo grau de 
liberdade, todos nós exigimos um certo senso de autonomia. E porque não há 
duas pessoas  que queiram exatamente a mesma coisa ao mesmo tempo, quando 
você vive com outra pessoa no seu espaço pessoal ou de compromisso ou de conflito, 
invariavelmente, isso acontece. Mesmo que um parceiro consistentemente ceda 
as suas micro-necessidades para o outro, a pessoa muitas vezes desenvolve um 
sentimento de ressentimento com o passar do tempo, o que pode levar a uma explosão 
súbita, ou uma série de explosões, em que o outro parceiro fica chocada ao saber 
da frustração para o qual eles contribuíram de alguma forma.

A SOLUÇÃO

Então, o que é que podemos fazer para impedir que os micro-compromissos 
que todos nós fazemos todos os dias, envenenem a nossa capacidade de 
nos relacionarmos positivamente com os nossos parceiros e, preservar a 
saúde dos nossos relacionamentos e, simultaneamente, preservar o nosso 
senso da elevada importância de independência e liberdade para fazer o que queremos?
Deveremos levar em consideração que:
  • Ninguém é absolutamente livre em todos os sentidos.
  • Liberdade é sempre um termo relativo.
  • Nem todas as coisas têm de ser necessariamente como nós queremos que sejam.
Mesmo nos países democráticos, em que temos liberdade de opinião, a nossa liberdade 
está longe de ser absoluta. Eu não posso bater em alguém só porque essa pessoa 
me irrita, pelo menos sem sofrer consequências. 
O simples facto de termos qualquer tipo de relacionamento obriga-nos a 
alguma forma de constrangimento, mesmo que seja apenas em relação ao 
tempo reservado para nós mesmos, os nossos amigos e familiares ocupam 
sempre algum desse tempo. 
Poderíamos optar por viver numa ilha (mesmo literalmente), mas rapidamente 
aprenderíamos da necessidade que temos para a interação social e, o quão 
importante é para a nossa felicidade.

NÃO DESDENHE DAQUILO QUE ESCOLHEU 

PARA SI

Se conseguirmos reconhecer que algumas restrições à nossa liberdade é o preço 
que pagamos por qualquer tipo de relacionamento que temos, pode ajudar a silenciar 
a frustração dos micro-compromissos que esses mesmos relacionamentos exigem. 
Lembre-se, foi você que escolheu a sua relação atual. Se você entrar na relação 
com os olhos bem abertos (e isso é um grande se), relembre-se disso quando você 
ficar frustrado com o acumular  dos micro-compromissos, isto pode ajudar a restaurar 
a perspectiva de responsabilidade, e esta pode aliviar a frustração até determinado 
grau que emerge dos micro-compromissos.
Olhe para os micro-compromisso como uma bênção. Este simples facto, muda a 
sua perspectiva, efetivando-se como uma estratégia útil na luta contra a frustração 
em ter que fazer micro-compromissos, evitando desta forma o acumular do ressentimento. 
Ao invés de sentir que tem de se comprometer, você deve escolher olhar para 
cada micro-compromisso como um pequeno presente que dá à outra pessoa
e vice-versa
Importante, porém, é ter noção da sua capacidade e/ou habilidade para recusar 
comprometer-se quando julga não fazer sentido, permitindo assim manter a sua 
sensação de liberdade desejada. Ou seja, é por esse motivo (quando assim o entende) 
que nem sempre se deve comprometer.

CEDA POR VONTADE PRÓPRIA

Os micro-compromissos estão diretamente relacionados com micro-cedências 
que se fazem. Se você se compromete a fazer algo, de certa forma está a ceder 
à vontade do outro (mas, de acordo com aquilo que tenho vindo a explicar, essa 
cedência convém ser de forma intencional, por vontade própria). Por exemplo 
se o marido não quer fazer uma micro-cedência  a esposa  pode satisfazer 
a sua necessidade, cedendo à sua micro-necessidade, e o marido por sua vez 
reconhece a escolha da esposa como um “presente” para ele. Se você 
conseguir olhar para as interações como a do exemplo que dei, como pequenos 
“presentes” e/ou “mimos” promoverá a troca e o envolvimento entre ambos 
(podendo até expressar da seguinte forma: “gosto muito de fazer algumas 
coisas ao teu gosto”). Isto permite desenvolver uma apreciação mútua, 
promovendo o orgulho que um tem pelo outro.
Tenho vindo a explicar que a chave para uma relação saudável é o comprometimento, 
mas este nem sempre tem de ser numa relação de 50/50. Existem alturas em que 
um dos parceiros necessita de 100% das suas necessidades satisfeitas, e o outro ter 
de comprometer-se completamente com isso.
A chave para um relacionamento saudável (ou pelo menos uma das 
chaves importantes), será reconhecer que os micro-compromissos são 
bênçãos/mais valias que necessitam ser trocadas, ao invés de exigências 
que precisam de ser arrancadas à outra pessoa. 
Se ambos os parceiros conseguirem abordar  o seu relacionamento desta forma, 
quando existir necessidade de se comprometerem com grande compromissos, 
é provável que menos ressentimento possa estar presente para interferir no raciocínio, 
promovendo uma clarificação e melhores decisões para ambos os parceiros.
No fim o casal comeu massa, mas a seguir, muitos dias comeram hambúrguer.
Não hesite, para bem da sua relação comprometa-se, ceda e faça disso uma benção.
Miguel Lucas : 
Licenciado em Psicologia, exerce em clínica privada. É também preparador mental de atletas e equipas desportivas


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